quarta-feira, agosto 12, 2009

Memórias de um desempregado de sucesso


















Procurar trabalho é um dos trabalhos mais ingratos do mundo.
Que o diga Zé Manel, um dos mais prestigiados desempregados profissionais que Portugal já conheceu.
Cedo descobriu o talento para o desemprego e mesmo quando a família e o mundo lá fora o pressionavam para encontrar uma profissão, Zé Manel não vacilou, manteve-se fiel à sua vocação.
A sua admirável passividade perante um futuro incerto e sombrio não tardou a ser considerada um caso inédito de ‘desambição’ que lançou a euforia no seio da comunidade científica portuguesa e internacional.
Ao ganhar o prémio de Desempregado do Ano, atribuído pelo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, Zé Manel concretizou um sonho de menino. A verdade é que apesar de saber que tinha nascido para o desemprego, nunca imaginou chegar tão longe sem ir a lado nenhum.
Mas engana-se quem pensou que o mediatismo ia fazer de Zé Manel uma pessoa diferente. Igual a si mesmo, cumpria escrupulosamente a rotina diária que mantinha há 43 anos de desemprego qualificado: acordar às 7h da manhã, ir ao café da esquina tomar a bica e passar a pente fino os classificados de todos os jornais diários, dar um saltinho ao Centro de Emprego para chekar as ofertas de trabalho, fazer candidaturas espontâneas, explorar o ‘mercado’ de tráfico de influências, enfim, um 100 número de actividades em que se especializou e que o tornaram uma referência incontornável no campo da procura inglória de trabalho e um profissional do desemprego absolutamente brilhante.
Os anos passaram e à medida que o país gradualmente ultrapassava a crise do desemprego, o fenómeno ‘Zé Manel’ começou a arrefecer. Aos poucos os jornais nacionais substituíam as notícias sobre o mais famoso desempregado de Portugal por escândalos financeiros e crimes passionais no jet set.
Zé Manel viu-se assim esquecido e ultrapassado. Agora era apenas mais um caso arquivado na memória popular.
Sem clube de fãs nem reconhecimento público, resolve pôr termo à sua longa e faustosa carreira de desemprego.
Depois do álcool, das drogas e da mais fétida decadência, às 8h da manhã de um certo dia qualquer, Zé Manel apresenta-se ao serviço, pica o ponto e começa o seu primeiro dia de trabalho.

3 comentários:

Sofá Amarelo disse...

Há sempre uma primeira vez nem que seja para descobrir as 'alegrias' do trabalho... a crítica funciona melhor quando é assim: pelo absurdo!

Parabéns! Beijinhos!!!

Algodão negro - poesia do banal disse...

Obrigada!
Fico sempre em choque quando vejo um comentário neste meu blogue inútil. É que não o divulgo quase a ninguém.
Posso saber como veio aqui parar?
Saudações blogueiras

antoniomaia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.